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3 de mai. de 2014

As águias colossais

Os 11 encarnados, prontos para fazer história.
Benfica na final de Turim (foto: Muguel Nunes/ASF)

Disse Alberto Caeiro, o mais ilustre heterônimo do poeta Fernando Pessoa, no imortal Mar Português, que para passar o Cabo Bojador era preciso passar além da dor. Nesta noite o Benfica superou não só a dor, como também um adversário poderoso, com uma das camisas mais pesadas do mundo, a Juventus, em seu estádio lotado. 

As Águias foram enormes. Terminaram o jogo com nove por causa da expulsão de Enzo Perez, na metade da segunda parte, e a contusão de Garay, antes dos oito intermináveis minutos de acréscimos, mas que valeram pelos mais de 230 mil sócios e 14 milhões de corações encarnados espalhados pelo mundo. 

Jorge Jesus, a quem tanto critiquei em outras épocas, armou uma defesa quase intransponível, com os colossais Maxi Pereira, Luisão e Garay anulando praticamente todas as ações ofensivas de La Vecchia Signora, que, apesar do enorme volume de jogo, não criou mais que três chances reais para vazar um seguríssimo Oblak, quase todas no primeiro tempo.

Vendo o domínio absurdo do time da casa, Jesus avançou as suas linhas e passou a segurar a bola no campo de ataque, sobretudo com Rodrigo e Ruben Amorim, que foram gigantes na entrega. Mesmo após o cartão vermelho mostrado ao argentino, os donos da casa, com Pirlo e Tevez em noite sofrível, não tiveram argumentos para garantir um dos lugares na decisão do dia 14 de maio, em sua própria casa.

Assim, o Benfica terá a oportunidade de fazer o contraponto à desastrosa temporada passada, quando perdeu todas as decisões que disputou nos minutos finais das partidas. Com o título nacional já garantido, o time de Jorge Jesus está nas decisões das outras três provas às quais toma parte, e com grandes chances de fechar uma época perfeita.

Feito o relato da partida, peço licença para terminar este texto com palavras que saem do meu coração encarnado:

Fomos a Turim pra podermos ir a Turim. Fomos grandes porque somos grandes. Somos o maior clube do mundo, que não vive de estatais, xeques e mafiosos endinheirados ou emissoras de TV. Somos grandes porque vivemos de nós, por nós e para nós.

A festa feita após o fim do jogo. Benfica na final de Turim (foto:Miguel Nunes/ASF)

1 de mai. de 2014

E a lágrimas teimam em cair

Peço-vos licença para falar de de futebol, mas de Ayrton Senna. Escuso-me de maiores explicações. Não é necessário.



Neste Primeiro de Maio faz 20 anos que as manhãs de domingo perderam a graça. Naquele Dia do Trabalho de 1994, a Williams de Ayrton Senna da Silva encontrou o muro da Tamburello, no GP de Ímola, San Marino, e colocou fim à trajetória do mais brilhante e visceral piloto que o automobilismo mundial já viu. 

Ayrton Senna foi mais que um esportista. Ele foi o Brasil que deu certo. Era competitivo sem ser desleal. Não aceitava jogo de equipe, mesmo que isso custasse o campeonato, como em 1992, quando passou a temporada brigando internamente com seu companheiro de equipe - e maior rival - Alain Prost, e o título ficou com Nigel Mansell.


Quando morreu, Senna estava na primeira colocação, na sétima volta, sendo pressionado pela Benetton de Schumacher, que conquistaria, naquele ano, o primeiro dos seus sete títulos mundiais. Bicampeão em 90 e 91, nos anos seguintes ele assistiu à supremacia das Williams, com Mansell e o próprio Prost sendo campeões.

No ano seguinte, finalmente foi para a escuderia inglesa, mas justamente naquele ano a Williams tinha um carro ruim, praticamente indomável. Para piorar, a Benetton de Schumacher voava. Não que o maior de todos os tempos sentiria a pressão para vencer um novato, mas é fato que a equipe se apressou para entregar um carro menos ruim, mas acabou precipitando o acidente que vitimou o tricampeão.


É impressionante como, mesmo passados 20 anos, a agonia ao ver as imagens do GP de San Marino é a mesma daquele Primeiro de Maio de 1994. Ainda há o desejo involuntário de frear o carro antes de chegar à Tamburello, de pedir em pensamento para que não fique tão aberto na tomada para fazer a curva à esquerda que nunca foi feita. E as lágrimas ainda teimam em cair.

20 de abr. de 2014

O esporte perdeu a alma

Morreu Luciano do Valle. Não um narrador. Quem partiu foi um precursor. Deixamos de ser o país só do futebol graças a ele, que não só idealizou o Show do Esporte, na Bandeirantes, como o transformou em sucesso absoluto. Para quem não sabe, o Show do Esporte era uma programação de oito, dez horas, inteirinha só de esportes: futebol italiano, vôlei, basquete, Formula Indy, sinuca (sim, senhor: sinuca), boxe. Luciano do Valle plantou a sementinha que transformou o voleibol em esporte de massa. Ele trouxe e despertou o gosto do brasileiro pela NBA, mesmo havendo um brasileiro, se muito, jogando por lá, e era o pivô Rolando. 

Descobrimos e passamos a gostar do futebol europeu a partir do calccio. O Napoli de Careca e Maradona, o Milan de Gullit, Rikjaard e Marco Van Basten e a alegria de ver que era possível jogar futebol em lugares que não fossem as pocilgas dos estádios do Brasil, como o Giuseppe Meazza (ou San Siro, como queiram), o San Paolo e o Delle Alpi. 

E quando ele formou a seleção de Masters? Que ideia foi aquela! Cafuringa, Rivelino, Edu Bala, Ademar Pantera, Edu, Mario Sérgio, Pelé! Craques que o tempo nos sonegou a possibilidade de ver, como numa máquina do tempo que nos trouxe de volta o brilho de tempos dos quais sentíamos saudade, mesmo sem nunca tê-los vivido. 

A voz que se calou na tarde do estúpido dia 19 de abril (o mesmo em que, 20 anos antes, desaparecia dos campos a arte de Dener) não escapou da arrogância dos censores das redes sociais, que dá voz a bobos cada vez mais bobos. Cada erro cometido numa transmissão virava piada, virava pilhéria, feita por gente sem a menor competência para tentar ter um pouquinho só da importância que teve Luciano do Valle.

Em 1982, ano da mágica Seleção de Telê, Luciano do Valle era o maior locutor esportivo da TV brasileira, uma espécie de Galvão Bueno, mas sem a idiota rejeição que o número um da Globo tem nos dias que correm. Era completo. Era absurdamente completo. 

O esporte, cada vez mais comercial e sem sentido, agora perdeu a alma. Morreu Luciano do Valle. 

19 de abr. de 2014

O supercraque da camisa 10

NA: quem não viu sequer faz ideia do que perdeu. Dener foi a síntese do futebol-arte e último herdeiro legítimo de Pelé. Era o melhor do mundo e, caso jogasse hoje, faria frente a Messi ou a Cristiano Ronaldo, sem exagero algum. Neymar? Nem dá pra comparar.


Naquela noite fria de quarta-feira do outono paulistano, o placar apontava um empate insosso sem gols entre Portuguesa e Internacional de Limeira, pela segunda rodada da segunda fase do Campeonato Paulista de 1991, quando, já perto do final do jogo o time do interior teve um escanteio pela direita do campo de ataque, para o lado do gol dos vestiários do Canindé. O tiro de canto, mal batido, foi interceptado por Wladimir. Nilson, o centroavante do time, ajeitou a bola para Dener, que vinha em velocidade na altura do grande círculo do meio-de-campo.

Como um bólido, partiu com a bola dominada e foi superando os adversários, um por um: primeiro Ivan, driblado em velocidade, na passada; depois, um drible da vaca em cima do zagueiro Lica. Denis, lateral-esquerdo, veio babando para aplicar uma tesoura, mas o arisco camisa 10 luso nem tomou conhecimento, para, da marca do pênalti, apenas tirar, com um toque sutil do lado direito, o goleiro, que tentava em vão fechar o ângulo. Na mesma noite, todos os telejornais (em 1991 a internet não era acessível como hoje) davam destaque ao gol de placa marcado no Canindé pelo menino que, menos de um ano antes, encantara (vestindo a mesma camisa oito que foi imortalizada por Enéas) o país na histórica conquista da Taça São Paulo de Futebol Júnior.

Dener era assim: criava oportunidades de gol do nada, em jogos em que parecia que não aconteceria mais nada. Ele foi um dos últimos gênios do futebol brasileiro. “Meia à moda antiga, criava chances de gol a partir do nada”, constatou o guia do Campeonato Brasileiro de 1993, da revista Placar. “O melhor do mundo. Morreu antes do reconhecimento”, disse certa vez Edinho, ex-goleiro do Santos e um dos grandes amigos do genial jogador, com a autoridade de quem é filho do Rei Pelé. Dos inúmeros sucessores do Rei, foi o que mais mereceu tal alcunha. Como se não bastasse, Pepe, que jogou com Pelé na Seleção e no Santos e foi técnico do craque luso, decreta em entrevista ao site Globoesporte.com: "Foi um dos cinco melhores atacantes que eu vi, e olha que eu vi Pelé, Eusébio, Puskas... Dener está neste rol".

Vestindo a camisa dez da Portuguesa, Dener brilhou intensamente. Como craque que foi, esteve acima de qualquer rivalidade, pois até os adversários renderam-se diante do seu imensurável talento. Quando ele se foi, seu nome ecoou por todos os estádios do país do futebol, não importando quais times estivessem em campo. Acima do bem e do mal, no coração e na saudade de todos, naquele momento, estava o nome de Dener.


Quando morreu, naquela estúpida madrugada de 19 de abril de 1994, Dener estava no banco do carona do seu Pássaro Branco, que era como ele chamava o seu Mitsubishi Eclipse branco, de placa DNR-1010. No momento em que Oto Gomes de Miranda, que conduzia o carro, colidiu numa árvore na lagoa Rodrigo de Freitas, no Rio de Janeiro, Dener dormia. Se estivesse acordado, certamente teria dado um drible na morte.

13 de abr. de 2014

Sobre avareza e permissividade



E é isso. Série B. A Justiça decidiu, mesmo sem decidir, que a Portuguesa estreia na próxima Sexta-Feira Santa contra o Joinville, em Santa Catarina, pelo segundo escalão do futebol nacional.

Jogar no feriado santo, algo impensável há alguns anos, nem é o maior dos problemas. Sendo o Brasil um país laico (embora a minoria barulhenta queira transformá-lo em agnóstico ou ateu, já que professar a fé virou, no advento das urrantes redes sociais, ignorância e pecado), não há nada de errado no fato de o jogo acontecer em um dia de guarda. O pecado, neste caso, é capital.

Em nome do poder econômico, alijaram-nos de disputar uma competição na qual nosso lugar foi garantido dentro de campo. Encontraram brechas, interpretaram-nas de acordo com a conveniência e venderam o bacalhau de acordo com a cara do freguês. Tem mais torcida? Opa, pode vir que a gente dá um jeito.

Mas dependendo do pecado, ao sul do Equador, ele nem existe. Ou melhor, depende de quem é o beneficiado pela avareza de quem tem a caneta  na mão e o controle sobre o controle remoto do permissivo e corruptível torcedor/telespectador/consumidor.

Todos viraram as costas. Mas por quê? Porque não fomos tenazes? Porque não fomos até o fim? É claro que fomos! Sabe o que nos faltou? Apoio. Não esse de Facebook, que é como abraçar a árvore centenária que será derrubada: é bonito, mas não resolve picas!

Foi um tal de urrar por justiça, de cobrar uma postura dura de um distintivo exaurido de ser solapado, roubado, sufocado. Entre um post raivoso e outro com um chiste qualquer, foram renovar o pacote do pay-per-view ou postar uma foto da figurinha do álbum de capa dura da Copa do Mundo.  

6 de abr. de 2014

Companheiro é companheiro



Durante esta semana a Portuguesa, enfim, entrou na Justiça Comum para tentar (por ora, com sucesso) restabelecer o resultado aferido dentro de campo no Campeonato Brasileiro de 2013/14/... e restaurar os quatro pontos descaradamente extraídos pelo tribunal da Rua da Ajuda, lá no Rio.

Todos que me conhecem sabem a minha opinião acerca do tema, e desde o começo da contenda, que é ir para a porrada mesmo. No entanto, existem inúmeras complicações, qualquer que fosse a postura tomada pela diretoria rubro-verde. 

Exceto o apoio irrestrito e incondicional e óbvio da torcida e de parte da imprensa, não houve um movimento sequer em termos desportivos, seja dos clubes (co-irmãos é o cacete) ou do Bom Senso FC, que desde o início manteve-se inerte, insosso, dando uma de João-sem-braço, como se não tivesse nada com isso. Dos clubes, o único apoio veio de fora, do Gil Vicente, de Barcelos, a cidade portuguesa onde o galo já morto cantou para salvar a vida de um peregrino inocente.


Vox populivox Dei (foto: arquivo pessoal)

Aqui, por estas plagas, os clubes não só viraram as costas para a Lusa, como fecharam com a CBF e a rede que detém os direitos do futebol tupiniquim, no ilegal, vergonhoso e despudorado (e quantos adjetivos desabonadores mais houverem para classificar a treta) acordo que reza que os times não recorrerão ou aceitarão que seus torcedores recorram à esfera cível quando seus direitos forem usurpados, sob pena de perder a cota da TV, estrategicamente, a mais significativa fonte de renda dos emblemas nacionais.

Por outro lado, caso aceitasse bovinamente disputar o segundo escalão do futebol nacional, como "aconselhou" a dupla biônica Marin-Del Nero, mesmo em troca de uma cota mais polpuda, seria a morte moral da Portuguesa. Acatar a decisão tomada no "julgamento" da Rua da Ajuda deporia contra a própria história rubro-verde. Mais que isso: decretaria definitivamente o início do fim de um clube que sempre lutou contra as inúmeras sacanagens cometidas contra si ao longo dos anos, desde que decidiu estar entre os grandes.

Foto: Leonardo Soares (UOL)
Hoje somos vistos como os paladinos da justiça, mas, se, no frigir dos ovos, dermos com os burros n'água, ninguém virá nos dar as mãos. Não se engane, torcedor, luso ou não. Estamos sozinhos nessa. Se vencermos, no fim, será somente por nós mesmos. Se perdermos, teremos somente a nós também. 

3 de abr. de 2014

Lusa x BR 2013: Novo desfecho

Ciente de que a Série A do BR-14 começa no próximo dia 19, a Lusa, que antes parecia conformada com a situação de ter sido punida pelo Superior Tribunal de Justiça Desportiva, vulgo STJD, com a perda de 4 pontos e o consequente rebaixamento à Série B, depois de um "uni-duni-tê sem fim", resolveu na última segunda-feira dia 31 de março, conforme anunciado à imprensa por Ilídio Lico (foto à esquerda), presidente da Lusa, entrar na justiça comum (!) e para surpresa geral da nação, obteve liminar favorável (!!).


Há determinadas situações que ao ingressar na justiça, obtêm-se diretamente a decisão do juiz, sem antes ouvir a outra parte, por causa entre outras coisas da urgência da situação - a Série A do BR-14 começa dia 19 - e principalmente também graças à vergonhosa morosidade da justiça brasileira, onde uma sentença demora no mínimo 5 anos para sair. 

Muito se fala de agremiação esportiva que entra na justiça comum corre risco de desfiliação da FIFA, mas como a Lusa esgotou primeiramente a esfera esportiva para só depois entrar na justiça comum, respeitando os trâmites legais, caso ocorra não será por conta de ingressar na justiça comum. Também vale a pena explicar que a Lusa pediu apenas a devolução dos 4 pontos, que foi concedido pelo juiz, não o rebaixamento de Fluminense ou Flamengo e muito menos a permanência na Série A, obrigando o campeonato a ter 21 clubes.

Vale explicar também que essa liminar não é definitiva e caso surjam fatos novos e relevantes para a causa, pode ser cassada ou derrubada e por conta disso, poderemos ter novos e vários desfechos do mesmo assunto, assim como também vale lembrar que no começo do ano, o Fluminense, "rebaixado que não caiu", ingressou na Justiça do Rio de Janeiro para que fosse mantido na Série A, ou seja: como as 2 decisões são conflitantes, ou a CBF cumpre a decisão judicial de São Paulo e devolve os pontos à Lusa e assim anula o rebaixamento, ou cumpre a do Rio de Janeiro que determinou a permanência do Fluminense na Série A e que também é de se esperar que o Flamengo não fique quieto, entre na justiça comum e consiga a sua liminar também.


Antes advogado da CBF contra a Lusa e que conseguiu derrubar todas as liminares conseguidas anteriormente que mantinham a Lusa na Série A, Carlos Miguel Aidar (foto),  candidato da situação à presidência do São Paulo, anunciou esta semana que não continuará advogado da CBF contra a Lusa, valendo lembrar que ele ainda advoga para a CBF no caso do Vasco. O que o fez mudar de ideia? "Consciência pesada" de não ter mais o apoio da Lusa, caso seja eleito, já que o próprio presidente da Lusa, afirmou no começo do ano, que se Aidar ganhasse a eleição, cortará todo tipo de relação com o São Paulo, por se dar bem com a atual diretoria e também com a oposição? Melhor nem ficar sabendo...

17 de fev. de 2014

Retalhos e rebotalhos


Um nome conhecido voltou à baila recentemente por dois motivos distintos: a eleição de um dos maiores clubes do mundo e uma das maiores sacanagens da história: Carlos Miguel Aidar.

Aidar é o candidato da situação na eleição do São Paulo. Figura histórica do Tricolor, foi Aidar um dos principais responsáveis pela criação do Clube dos 13, lá nos anos 1980. Graças a Aidar foi criada a Copa União, que deixou como legado o futebol para a Rede Globo, além da primeira prova inconteste da incompetência dos dirigentes brasileiros de gerir um campeonato sem a chancela da CBF ou de outra entidade-mamadora-nas-tetas-dos-clubes, como é a FPF, só para dar um exemplo.

Durante anos, por causa da disputa com o Flamengo (time do coração de Ricardo Teixeira) pela Taça das Bolinhas, o São Paulo viveu às turras com a CBF. Depois que o Don Corleone largou o osso e a cadeira em favor do filhote da ditadura e afamado surrupiador de medalhas, o time da fidalguia paulistana se reaproximou da entidade máxima do ludopédio tupiniquim.



Agora Aidar é o advogado contratado pela CBF para cassar as liminares que a obriga a restituir o resultado aferido dentro de campo no Brasileirão-13. Além de ser o escolhido pela entidade para defender, segundo suas próprias palavras, a decisão do STJD, que é (ou deveria ser) teórica e estatutariamente independente, se presta ao triste e rasteiro serviço de porta-voz das ameaças vindas da Barra da Tijuca.

Mas se engana quem pensa que é recente o histórico de Carlos Miguel Aidar quando o assunto é afrontar a gente do Canindé. Foi Aidar o responsável pela Portuguesa ter sido posta à margem na concepção do Clube dos 13, fato que a alijou da disputa do primeiro campeonato com virada de mesa do país, a Copa União, aquela concebida por Aidar, em 1987 (em 86 o Botafogo não atingiu a pontuação necessária para garantir em campo o seu lugar na elite, coisa que América-RJ, Guarani e Portuguesa fizeram com sobras).

É imoral e promíscua a relação dele com a CBF. Ora, se for o presidente do SP, como poderá opor-se à CBF em alguma contenda? Ah, mas o Marin criou-se no São Paulo, né? Sim, e na ditadura também. E na aristocracia que manteve a ditadura, como assim também foi com a Globo, que tem interesse em ter o Fluminense na Série A. Os retalhos estão aí. É só costurar.

25 de jan. de 2014

Apesar de você


Assis Chateaubriand tinha um jeito todo seu de tratar de negócios. Quando precisava captar recursos para os Diários Associados, chamava um empresário, digamos por exemplo, do ramo de grampeadores para papel e sugeria que este fosse seu anunciante. Se o sujeito tivesse a petulância de negar, Chatô nem falava nada, mas a partir de então começava uma campanha difamatória a partir dos seus veículos até que o infeliz abaixasse a crista e voltasse com o rabo entre as pernas e, é lógico, aceitasse um valor bem menor.

Um antigo empresário espanhol da região do ABC paulista, cujo sobrenome é o mesmo do partido da ditadura militar, quando se via afrontado por alguém de menor envergadura (não a moral), o contratava para depois demiti-lo por justa causa. E ai de quem discordasse ou olhasse feio pra ele.


E o mundo caminhou. E a ditadura caiu, mas alguns fantasmas (de cabelo acaju acobreado de gosto duvidoso) insistem em arrastar suas correntes por aí, com o mesmo procedimento de um Chatô ou do empresário do ABC. Só que ele não viu que os tempos mudaram e que ele também vai pelo mesmo caminho. Como disse Chico, hoje é outro dia, o galo insistiu em cantar e a água nova brotou.

8 de jan. de 2014

O Pantera Negra



De repente o dia ficou mais triste. Morreu Eusébio, o Pantera Negra. Não o "Pelé europeu", como ele mesmo abominava ser chamado. Primeiro por ser africano, de Moçambique, onde deu os primeiros chutes numa bola pelas ruas de Lourenço Marques, atual Maputo, onde nasceu. Depois, porque queria evitar comparações com o Rei. Curiosamente vestia a camisa de um time que lembrava o então maior rival do Benfica, o Sporting de Lourenço Marques.

Mas foi o Benfica que o levou, pelas mãos de Béla Guttmann. Os míopes dirigentes são paulinos da época não acreditaram, mas a gente encarnada comprou a ideia e levou, escondida na caçamba de uma picape, a joia que mais brilhou vestindo seu manto.

Com ele, o Benfica, que já era campeão europeu, virou uma esquadra mítica. Do mesmo quilate do Real Madrid de Gento, Puskas e Di Stéfano; ou o Santos de Pelé e cia; era o Benfica de Eusébio um timaço, mas assim como apenas Pelé bastava para tornar o Santos lendário, as camisolas encarnadas da equipa da Pantera Negra eram temidas por ter, dentro de uma delas, o maior.

Eusébio era o tipo de pessoa que a gente tem a impressão de que nunca morrerá. "Existem pessoas que não deveriam morrer" é a frase que está escrita no site do Benfica neste triste domingo. Na estátua em tamanho natural que o imortalizou, à entrada da Catedral da Luz, o palco onde o rei do futebol de Portugal mais brilhou, é possível ver que o carinho dos adeptos transcendeu, excedeu, virou devoção. 

Devoção: a estátua de Eusébio é coberta por homenagens. Na cabeça,
a coroa que mostra quem é o rei do futebol português. (EFE/EPA/Pedro Nunes)
O mundo hoje chora, atônito, surpreso, o passamento de um dos grandes gênios da humanidade. Despediu-se hoje um Chopin, um Mozart, um Sabin, um Galileu. O futebol, cada vez mais midiático, quadrado, insosso, pasteurizado e cheio de craques de 15 minutos e de jogos fáceis, perdeu um pouco da essência que restava. Ficou sem graça. Morreu Eusébio.  

As cerejas do seu Coriolano



O seu Coriolano era um português bravo. E tinha uma quinta. Na quinta tinha uma cerejeira carregadinha e, de olho nela, meu pai e seus amigos, outros putos daquela Castelo de Paiva dos anos 1950. 

Certa vez, meu pai chamou os outros rapazotes, todos com 11, 12 ou 15 anos, se muito, para pegar as cerejas do seu Coriolano. 
- Mas ó, Tinito, e se ele descobre?
- Ficai tranquilo, que ele está na venda pela manhã.
- Ah, então está bem! Amanhã vamos lá comer as cerejas.

No outro dia, logo cedo, lá foi o jovem Constantino à venda do senhor Coriolano.
- Senhor Coriolano, daqui a pouco os meninos da escola vão roubar suas cerejas.
- Escuta aqui, ó Tinito! Como sabes?
- Eu os ouvi a conversar após a aula. 
- Ai, Jesus! Vou dar uma trepa nestes malandritos!

E lá foram eles: seu Coriolano, o filho dele e meu pai. E varas de marmelo. Na frente, meu pai apontou os outros miúdos já na copa da árvore.

- Ai, que estão uma delícia estas cerejas, ó, Quinzinho!
- Ah, é, Arthur! Estão pintadinhas!

De repente, a voz vinda lá de baixo, como o prenúncio do apocalipse para aqueles dois:
- Descei daí, malandritos!
- Ó, seu Coriolano, não bate na gente.
- Já falei: vós desceis daí, antes que seja pior.
Zummmmm! Zummmm! Ai, não batei, ai, Jesus! Ai, estupor!
- Quero ver andar a roubar as cerejas agora, 

Ao longe, meu pai ria com o êxito da empreitada.
- Obrigado, ó, Tinito! E levais uma cerejas pra ti. Olha que estão pintadinhas!

Assim fez a CBF. Através do "BID da suspensão" e do desmazelo na forma de lidar com os clubes, deixou Héverton liberado para jogar contra o Grêmio, para depois ela mesma denunciar. A traquinagem do meu pai, lá em Portugal, não tinha maldade alguma, mas não dá para dizer o mesmo sobre a entidade máxima do futebol nacional. E é isso o que ela terá que explicar ao Ministério Público.

27 de dez. de 2013

Os doutos donos da lei


Os doutos donos da lei se reuniram na manhã quente da Rua da Ajuda para decidir o fado do futebol brasileiro. Engravatados, os doutos donos da lei tinham o calor suavizado pelos equipamentos de ar-condicionado da sala do tribunal.

Assim, os doutos donos da lei colocaram-se acima do bem e do mal. Inatingíveis, desfilaram um rosário de termos complicados para quem, diferentemente deles, não é sábio, não tem o condão da lei sob o braço ou os pés.

Não os pés que chutam a bola. Estes calçam chuteiras coloridas (ou não), não sapatos de cromo alemão impecavelmente engraxados e, quiçá, nunca estiveram dentro de um kichute, cujo cadarço era amarrado nas canelas. Os pés em questão pisaram na bola.

Parte de um grupo de ungidos não pela Providência Divina, mas pelas benesses de um sistema feudal, os doutos donos da lei foram mais importantes que os 14 gols de um centroavante ou o tento marcado pelo goleiro, já nos acréscimos de um jogo praticamente perdido.

Os doutos donos da lei não julgaram, mas promoveram uma execução sumária. Sob o argumento roto de preservar as leis do jogo, modificaram o resultado aferido dentro de campo. O mesmo rigor não foi adotado com o fluminense (com caixa baixa mesmo) em 2010 ou com o Cruzeiro neste ano que finda em três dias.

Consideraram não haver prejuízo para a competição. Para outros, porém, foi aplicado o rigor da lei:Dura Lex, Sed Lex, disseram os doutos donos da lei. Só que o Dura Lex, Sed Lex não é Ad Aeternum. Depende da cara do freguês.



O comportamento dos doutos donos da lei foi assustador. Pareciam predadores em uma savana babando diante da presa, à espera pelo momento de refestelarem-se. E assim foi feito o banquete.

O que os doutos donos da lei fizeram não foi manter a lisura da competição. Foi cobrir com lama o pior campeonato brasileiro de todos os tempos.

21 de dez. de 2013

O dia do fico



Quando o STJD puniu a Portuguesa com a perda de quatro pontos por causa da suposta irregularidade na escalação do meia Héverton na última rodada do Brasileirão, eu perdi o tesão pelo futebol. Não por causa da punição, mas da forma.

Ficou a sensação de que, por mais que façamos, não será o suficiente para atender as demandas desse futebol/business, que muitos chamam de moderno. Não que eu considere importante a adequação lusa nesta mesquinharia na qual o futebol se transformou, mas o fato é que nossa simples presença incomoda.

Desde a noite da encenação que teve lugar na Rua da Ajuda, Rio de Janeiro, não assisti a absolutamente nada que fosse relacionado ao futebol. Liga dos Campeões, Mundial de Clubes ou qualquer coisa que ao menos lembre o esporte que Charles Miller trouxe ao Brasil.

Não me via mais naquilo. Não fazia sentido algum sair todos os dias para trabalhar, com raras folgas, para que, por causa da ação nefasta de um procurador qualquer, fosse deitado ao solo tudo o que fizemos durante um ano. 

Por conta disso, resolvi que largaria tudo, voltaria a estudar, faria meu mestrado e seria professor. Afinal de contas, o que eu perdi foi a fé no futebol, não no jornalismo, e como professor eu poderia ao menos passar aos meus alunos os meus valores. No futebol de hoje, caro leitor, há pouco espaço para a lisura e a decência.

Eis que neste sábado resolvi dar mais uma chance para mim mesmo e fui ao protesto organizado pela torcida da Portuguesa na Paulista. Vi tanta gente, com tantas camisas diferentes; vi o maestro João Carlos Martins, o Roberto Leal e, principalmente, gente como o dr. Michel Muniz, lá da Lusa, e o Carlos Ferreira, que fizeram parte do grupo neste ano. 


Vi o amor e a gana dos torcedores da Portuguesa. Eles, deferentemente de mim, não haviam desistido. Em vez disso, resolveram lutar e mostrar para quem quer que seja que não será um tribunal, um procurador ou seja lá o que for que nos alijará do direito de defender nossa grandeza, essa grandeza forjada na luta, na lágrima, no sangue e no suor. Essa grandeza de verdade, que não é bancada por nenhuma emissora de TV ou estatal. 

Ora muito bem! Não será isso que me fará desistir de lutar pelo que acredito, qualquer que seja o resultado do recurso que será julgado no pleno do STJD na próxima sexta-feira. Ganhamos o direito de permanecer na elite dentro de campo e somente nele é que aceitamos discutir nosso fado. É nisso que eu acredito e é por isso que eu seguirei lutando.

16 de dez. de 2013

A Lei de Gérson




Vi torcedores do Fluminense comemorando na frente do STJD (fica na Rua da Ajuda, é bom que não se perca pelo nome) o resultado do julgamento de hoje como se fosse um título. Um deles, à Fox Sports, usava gravata e mostrava, orgulhoso, o dedo indicador, em alusão à primeira divisão que seu time acabara de ganhar de presente pela terceira vez. Outro, em primeiro plano, dizia que não tinha vergonha do que acontecera minutos antes do tribunal.

Riam feito hienas que acabaram de encontrar um cadáver fresquinho, pronto para ser consumido. São os mesmos que, há alguns dias, foram às ruas protestar por causa do aumento da condução, da corrupção e outras querelas diárias tão comuns neste país (DE MERDA).

São os mesmos que bradam feito loucos quando um pênalti legítimo é marcado contra si, mas regozijam-se a cada lance ou armação ou tapetão a favor do seu time. Eis o limite entre o júbilo e a revolta. São os mesmos que, com este comportamento deplorável, fiam as maracutaias existentes em todos os níveis sociais. O "levar um por fora", o "quanto é que eu levo nisso", é inerente a esse tipo de gente.


Os abraços de felicidade, as lágrimas de alegria que foram derramadas pelos maus torcedores do Tricolor (três cores, uma para cada tapete) são o mais fiel retrato que há da sociedade nos dias que correm. Esta é uma geração praticamente perdida, que pouco ou nada tem para levar consigo como valor. Moral? Virtude? Perdoe-me a expressão, mas FODA-SE! Para ficar no jargão eternizado pelo craque (tricolor, diga-se) Gérson, o negócio é levar vantagem em tudo, certo?



No lugar deles, eu teria vergonha de vestir a camisa do meu time. Mas aí é questão de berço.

27 de nov. de 2013

O direito de ser imbecil

Guindaste não suportou o peso e caiu sobre parte do estádio corintiano (imagem: AE)

Tragédias como a de hoje, nas obras do estádio do Corinthians, mostram como o ser humano pode ser boçal. Não há limites para  a pequenez de espírito quando a falta de humanidade, de valores, é demonstrada dia após dia. É só aparecer a oportunidade.

Alguns se apegam a causas, que defendem com a própria vida, se for o caso. Outros, os desprovidos de bom-senso, limitam-se a agir feito hienas à espreita de carniça. Se arvoram quando têm a chance a sua frente ou no ecrã do computador.

As redes sociais deram vozes a quem não tinha, mas, como contra-indicação, espaço a imbecis, a poltrões que falam de tudo, mesmo não tendo base para falar de nada, a não ser da própria inutilidade. No esquema tático da humanidade, esses não servem nem para compor elenco. 

São bufões que desopilam o fígado em nome de uma rivalidade burra, assim como eles. Não enxergam um palmo diante do próprio focinho e gostam de fazer troça de tudo.

Todos têm direito à imbecilidade, mas alguns exageram ao fazê-lo valer.